Longo Amor

Publicado: 20 de setembro de 2010 em Sem categoria

Caso um dia minha dama

A encontrar na escuridão

Servirei –a com volúpia

Na nossa carnal paixão

Quando a noite nos encontrar

Buscarei-a de forma amável

Como é feito com a carniça

Pela hiena miserável

E tendo-a já possuída

Irei a você louvar

Da minha forma descabida

A qual irá amar


Sinta-me

Toque-me

Fela-me

Fere-me

Faça do meu ser

O seu culto

Excluso

Devasso

E sombrio

Tenha-me como um surto

Sisudo

Lascivo

Quase um perigo

Desejo escondido

Por seu ar hostil

Quero o seu corpo

Assim como

Um puto

Desnudo

E febril

Dê-me o seu ódio

Ou amor

Que não ligo

Quero é sua carne

O meu manto

Acalanto

Esquentando-me

Tal como

Um fogo ardil

Esqueça da hora

Que agora

Não importa o marido

Sou seu amante vadio

Cachorro lascivo

Procurando abrigo

Em sua mente senil

Invadi o seu leito

Explorei o seu mato

Eu quero o seu peito

Não ligo ao maltrato

Traga-me o gozo

Seja fogosa

Mostra-me esforço

Não quero esperar

Agora querida

Sou gato esfolado

Já comi a pomba

Tenho que zarpar

Não se esqueça da grana

Que deve pagar

Depois eu a cobro

Pois o dia amanhece

E Cronos pôs fim

A nossa orgia

Por Baco sagrada

Pois seu amado traído

Já está a vir

Mas amor não me esqueça

Guarde-me com saudades

Pois dentro em breve

Voltarei aqui

E nessa visita

Repito o ato

Pois sou o desacato

Sempre convocado

Por seu tesão mascarado


Eu?

Publicado: 18 de setembro de 2010 em Essência

Versos maltratados
Papel amassado
Sou um rabisco tentando ser aprimorado

Um pouco careta, altamente libertário
Sou daqueles que fala mais do que deve
Uma parte irrisória da turba
Um ser sem nexo

Não, não sou uma poesia lírica
Não rimo, não sou belo
Sou deste tipo, assim
Meio cuspido, diria até infantil

Sou, portanto, uma mágica
Como cada ser, cada arte
Já que, mesmo falho e desvirtuado
Eu amo, eu me amo e acredito ser amado

Por isso digo, com um orgulho de existência laica
Sou areia da vida, mas uma daquelas de sorte
Que é, pelo mar da alegria e dos sonhos
Por inteiro banhada      

Preâmbulo

Publicado: 20 de junho de 2010 em Essência

O que é poesia? Por que escrever poema, ninguém lê….

É estranho, mas para começar a falar de poesia, independência poética, eu gostaria de usar um poeta antigo… Um velhinho de praça que, na sua simplicidade, foi um dos poucos poetas verdadeiros…

Antes de pensar no que eu penso, gostaria de abrir esse espaço com esse grande poeta brasileiro, Mário Quintana, para dar a esse ambiente a atmosfera exata que ele deve possuir, tudo seguindo o que ele mesmo nos disse:

“Qualquer idéia que te agrade,
Por isso mesmo… é tua.
O autor nada mais fez do que vestir a verdade
que dentro em ti se achava inteiramente nua…”

Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos.

Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mário Quintana